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	<title>escrever é difícil</title>
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		<title>só 10% é mentira</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2011 13:09:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[rabiscar uma borboleta dando forma a uma mancha sobre um muro é forçar a imaginação a transver o mundo (aos moldes de manoel de barros). mas, a um só tempo, delimita a fronteira entre o que é tijolo e o que é traço: fazer da imagem o rascunho que atravessa a inseparação do que é &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2011/07/08/so-10-e-mentira/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=231&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;">rabiscar uma borboleta dando forma a uma mancha sobre um muro é forçar a imaginação a transver o mundo (aos moldes de manoel de barros). mas, a um só tempo, delimita a fronteira entre o que é tijolo e o que é traço: fazer da imagem o rascunho que atravessa a inseparação do que é mundo e do que é mundo-inventado. nem na materialização das coisas, nem na potência da linguagem. entre. na [in]conciliação do paradoxo.</p>
<p style="text-align:center;">•••</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/isaacpipano.wordpress.com/231/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/isaacpipano.wordpress.com/231/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=231&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>um dia na vida, eduardo coutinho</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 22:15:18 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Na sala cheia do IFCS, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no belo largo do São Francisco, no centro caótico do Rio, todos aguardam o início do que seria a terceira, ou quarta, exibição do filme-performance de Coutinho. Filme-performance por vários motivos. Entre os quais o fato de Um dia na vida ser fruto de &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2011/06/02/um-dia-na-vida-eduardo-coutinho/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=246&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;">Na sala cheia do IFCS, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no belo largo do São Francisco, no centro caótico do Rio, todos aguardam o início do que seria a terceira, ou quarta, exibição do filme-performance de Coutinho. Filme-performance por vários motivos. Entre os quais o fato de <em>Um dia na vida </em>ser fruto de uma montagem debruçada sobre 19 horas de captação de imagens da televisão aberta brasileira, da madrugada e seus programas educativos, bispos e <em>color bars</em> até o final do dia seguinte, quando voltamos às [quase] mesmas imagens.<em>Performance</em> porque as questões legais impedem que o filme seja amplamente difundido, assim como a natureza televisiva das imagens inibe uma larga circulação pelos canais escusos da internet, obrigando o filme a ser exposto sempre através de uma rede não muito explícita de mediações. Assim, qualquer exibição do filme de Coutinho (e dizer filme de Coutinho já é por si só uma asserção bastante estranha diante de um objeto onde o conceito tradicional de autor tenta se esquivar, inexorável paradoxo) depende de sua presença exclusiva como mediador na sala; da não cobrança de ingressos e de uma atmosfera meio mística, meio transgressora, de acesso livre às imagens que por direito pertencem à esfera dos conglomerados midiáticos e seus patrões.</p>
<p style="text-align:left;">Objeto estranho, “coisa”, “troço” (nomes carinhosos utilizados por Coutinho para se referir às imagens), <em>Um dia na vida </em>possibilita discussões infindáveis – e algumas delas provavelmente infundadas &#8211; acerca das relações entre consumo-imagem e midiatização da subjetividade; vidas performadas e superexposição do eu; conteúdo pouco produtivo, saturação dos clichês, autoparódias e da consciência de que a televisão aberta brasileira é, de fato, muito ruim. Não precisaríamos de Coutinho, ou do filme, no entanto, para nos darmos conta disto. Bastam alguns segundos zapeando os canais. Tampouco nos cabe refletir sobre os estudos de recepção que invariavelmente levam à questão: a programação existe porque há uma correspondência com espectadores interessados em seu conteúdo. Pois, não há programa que se sustente em qualquer horário sem pontos no Ibope.</p>
<p style="text-align:left;"><a href="http://isaacpipano.files.wordpress.com/2011/10/ana-maria-braga.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-247" title="ana maria braga" src="http://isaacpipano.files.wordpress.com/2011/10/ana-maria-braga.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align:center;"><em>Guitar Ana Maria Braga Hero</em></p>
<p style="text-align:left;"><em></em>Se não podemos nos desvencilhar da força discursiva das imagens, que nos causam sem pudor um misto de repugnância e cinismo com seus excessos, revelando instantes performáticos inimagináveis, nos resta pensar no ato da montagem desses blocos de imagens que resultam na experiência de <em>Um dia na vida</em>. Se Coutinho parece se isentar de seu próprio papel enquanto seletor e organizador das imagens captadas, reiterando muitas vezes em sua fala o respeito rigoroso na manutenção da cronologia e seus intervalos, não podemos evitar a presença de um autor diluído, consideravelmente, no exercício de não ser o produtor das imagens, mas sem dúvida presente no modo como o próprio dispositivo se instala e se efetiva enquanto processoNeste sentido, não há como não nos lembramos de <em>Pacific</em>, de Marcelo Pedroso, filme também composto por imagens alheias, fornecidas posteriormente à realização de um cruzeiro por seus passageiros e montadas pelo diretor. É o próprio Pedroso quem escreve a Bernardet argumentando que as operações de montagem do filme tiveram de ser feitas como uma espécie singular de funambulismo: nem tão próximo de seus personagens a ponto de suplantar sua voz às deles, nem tão distante a ponto de permitir, como se fosse possível, uma espécie de emancipação de seus atores.</p>
<p style="text-align:left;">De algum modo, o exercício de Coutinho em <em>Um dia na vida</em> compartilha dessa operação particular: entre a manutenção de certa duração das imagens e suas intenções discursivas próprias de sua constituição e uma desmedida ideológica constantemente perseguida por Coutinho, como se estivesse sempre a evitar que sua mão se impusesse demasiadamente sobre conteúdos eles mesmos já tão precisos em suas intenções. Assim, sempre que uma imagem parece estar a um passo de produzir um engajamento vem o corte e, com ele, um novo bloco narrativo com suas próprias durações. O que cria um jogo arriscado onde o realizador está sempre a um passo de autorizar todos os discursos ou isentar-se de suas responsabilidades.</p>
<p style="text-align:left;">Em nosso cinema contemporâneo, onde as relações indiscerníveis entre vida e imagem, ou vida-imagem, parecem reconfigurar um novo sujeito político, pensar a montagem como operador central ser torna vez mais fundamental. Como escreve Cezar Migliorin: “juntar imagens para garantir que novas linhas não cessem de inventar relações”. Sobre linhas tão retas como as da televisão aberta brasileira, a montagem talvez possa se efetivar como a condição de possibilidade do que produz as curvas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/isaacpipano.wordpress.com/246/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/isaacpipano.wordpress.com/246/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=246&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>para o espectador preguiçoso</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 01:33:13 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Na última festa do Oscar, A Origem, de Christopher Nolan, e O Discurso do Rei, de Tom Hooper, se divertiram com boa parte das estatuetas. Se a saga contemporânea do jovem empreendedor Mark Zuckerberg, criador do Facebook, de A Rede Social, foi ofuscada pela do Rei George VI e sua gagueira na disputa dos prêmios principais, o filme de &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2011/04/09/a-servico-do-espectador-preguicoso/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=286&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://isaacpipano.files.wordpress.com/2011/10/a_origem03.jpg"><br />
<img class="aligncenter size-medium wp-image-287" title="A_origem03" src="http://isaacpipano.files.wordpress.com/2011/10/a_origem03.jpg?w=300&#038;h=150" alt="" width="300" height="150" /></a></p>
<p>Na última festa do Oscar, <em>A Origem</em>, de Christopher Nolan, e <em>O Discurso do Rei</em>, de Tom Hooper, se divertiram com boa parte das estatuetas. Se a saga contemporânea do jovem empreendedor Mark Zuckerberg, criador do <em>Facebook</em>, de <em>A Rede Social</em>, foi ofuscada pela do Rei George VI e sua gagueira na disputa dos prêmios principais, o filme de Nolan arrebatou os prêmios técnicos, condizente com sua carreira milionária de <em>blockbuster</em>. Por meio da miraculosa construção formal, o tal “labirinto dos sonhos” tão reiterado pela crítica, Nolan conquistou o prêmio de melhor montagem. É curioso, no entanto, sob um olhar menos embasbacado pelos apuros visuais de dobrar prédios, o modo como esse novelo de histórias na verdade oculta uma montagem linear, na verdade, muito simples. Ao mesmo tempo, o diretor, que já havia se mostrado tão cuidadoso com seus personagens, conduzindo-os sempre ao limite da própria impossibilidade (como o detetive de <em>Insônia</em>,<em> </em>que não dorme jamais), tensionando-os ao esgotamento, se ocupa de tipos tão planos, justo no filme que disse ser sua obra-prima.</p>
<p>Em <em>A Origem</em><em>, </em>os personagens apenas ocupam os espaços que lhe são dados sem possibilidade de embate ou revelação. Ser um personagem aqui é manter-se sempre a passos seguros da linha de transgressão. O que não é um problema, diga-se de passagem, mas uma escolha &#8211; afinal, os lugares fixos dos clichês não deixam de ser uma opção formal cinematográfica repleta de potência criativa. Contudo, há um problema no filme de Nolan entre o <em>querer-ser</em> e o que de fato <em>se</em> <em>é</em> enquanto filme. A saber. A arquiteta, por exemplo, surge na trama como personagem-chave para o porvir e acaba se autorizando menos por uma função narrativa do que pela necessidade constante que tem o filme de se explicar para nós, espectadores, e, assim, tornar-se absolutamente compreensível. O desconhecido para a personagem é, acima de tudo, desconhecido para nós mesmos &#8211; e o filme encontra, assim, seu álibi para se diagnosticar, nos ínfimos pormenores, como um longo tutorial audiovisual onde prédios são dobrados ao meio e espelhos multiplicam os corpos. E a ideia funciona: diante da maestria das imagens e de uma habilidade singular em manter um ritmo pulsante a níveis inseguros de adrenalina, propicia-se o espaço para que o roteiro dê vazão à estratégia de se parecer complexo quando não é.</p>
<p>Assim, <em>A Origem</em> reafirma um cinema a serviço do espectador preguiçoso, onde a descoberta cede lugar ao ordenado. Não há sobras para a ambiguidade e a própria imprevisibilidade torna-se, por assim dizer, previsível e calculada: impossibilitada pela presença definitiva dos diversos narradores que constantemente nos respondem às dúvidas para evitar que nos percamos lá pelas tantas, após níveis e desníveis de sonhos: mesmo quando simplesmente não haja onde se perder. A montagem paralela de Nolan ocupa o mesmo lugar das outras tantas narrativas, já muito bem assimiladas pelo cinemão e inclusive por nós, operando na distensão do tempo. Embebida deste tom labiríntico, obedece aos mesmos esquemas lineares de começo, meio e fim, tal e qual o melhor do cinema clássico &#8211; mesmo que o fim seja o começo -, onde as dimensões de cada nível mais profundo do inconsciente correspondem a certas demandas de um tempo medido no relógio: uma das histórias dura um minuto; a outra, meia hora; a mais profunda, uma tarde. Poderia ser dez anos, três meses, uma noite, tanto faz se, no limite, todas estão concatenadas como num jogo onde as cartas estão viradas pra cima – e nós vemos estampados os seus símbolos antes de cada novo lance.</p>
<p>Numa certa entrevista, Nolan afirmou, ainda que em tom de brincadeira, que havia feito seu <em>Ano Passado em Marienbad</em> com tiros. Jamais. Se algo pode ser dito a respeito de ambos é justamente o modo como se opõem enquanto narrativas. Com Resnais, há justamente a incapacidade de atribuição de lugares fixos aos personagens, o que impossibilita dotá-los de identidades. O tempo e o espaço tornam-se indiscerníveis num mundo não mais pautado por ações-reações, mas pela própria possibilidade do cinema dar a ver uma experiência direta do tempo, desprendido de suas  coordenadas, desvinculado do movimento. Não há oposição maior que se sustente como a que ocorre em <em>A Origem.</em></p>
<p>Com relação aos personagens, operam-se, sobretudo, estereótipos: o químico, o ladrão, a arquiteta, o falsário . Até mesmo este, cujo lugar está atrelado ao dobramento de si, acaba por reiterar constantemente aquilo que é: sob a máscara daquele que simula ser, vemos seu próprio rosto. Aos nossos olhos, ele se disfarça enquanto revela aquilo que de fato não deixa de ser. As ações atrelam-se intimamente com o fazer-sentir e o tempo: é preciso que cada nível de sonhos se enovele ao outro até tornar-se um só. Em outras palavras, os mergulhos mais profundos no inconsciente estão suspensos por fios que os prendem aos níveis superiores, criando uma rede onde não há sobra ou impossibilidade de escape: “tá tudo amarrado”, parafraseando um de um dos nossos maiores bordões contemporâneos!</p>
<p>Enquanto a disjunção, a fragmentação que não dá a ver unidade e a instabilidade são a própria experiência de Marienbad, <em>A Origem</em> se adapta a uma lógica definitiva das causas e certezas. Se a potência de <em>Ano Passado em Marienbad</em> é o indiscernível, em <em>A origem</em> ela é a da certeza: mesmo que do impossível.</p>
<p><span class="Apple-style-span" style="font-family:'Helvetica Neue', Helvetica, Arial, sans-serif;font-size:12px;line-height:18px;">Por fim, há de se fazer outra comparação. O que se falou de <em>A Origem</em>, não se escreveu sobre <em>A Ilha do Medo</em>, tido como filme menor de Scorcese – ainda que menor possa ser um adjetivo bastante questionado. Os dois tem, em comum, o fato de serem quase o mesmo filme. Quer dizer, ambos constroem um mesmo protagonista lidando com a perda e o inconsciente enquanto operador central da narrativa – ainda que difiram entre uma possível patologia e um aparato técnico de invasão dos sonhos. Dadas as singularidades do roteiro, os filmes se parecem, e muito. Não fosse o filme de Scorsese ser muito melhor.</span></p>
<p><span class="Apple-style-span" style="font-family:'Helvetica Neue', Helvetica, Arial, sans-serif;font-size:12px;line-height:18px;">Pois, enquanto a busca de certezas de <em>A Origem</em> impossibilita ao espectador uma imersão que não seja valorada pelas explosões, tiros e pirotecnias plásticas, <em>A ilha do Medo</em> conduz o estado de histeria do protagonista ao limite. A diferença é impressionante. No filme de Nolan, o mundo dos sonhos é um não-lugar, distanciado de seus personagens, por onde eles circulam, se comunicam e produzem suas ações. No de Scorsese, há o total embaralhamento entre o mundo e o eu de seu protagonista. Assim, torna-se impossível desvencilhar as circunstâncias dos afetos do personagem de DiCaprio.</span></p>
<p>Até a sequência final de ambos os filmes apresenta justamente o mesmo anti-clímax: estar ou não estar acordado, estar ou não estar louco. Contudo, quando o peão de <em>A Origem</em> roda sem cessar, tanto faz. Quer dizer, não houve ao longo da narrativa nada que justificasse incertezas dos lugares ocupados. Diferente do final de <em>A Ilha do Medo</em>, quando a dúvida parece ser a de nós mesmos e já não se sabe se a loucura é qualidade de seu herói, ou se o mundo todo se pôs a estar louco. E não é isso o que deve fazer o cinema? Tirar-nos do nosso estado de letargia, roubar-nos o chão? Perturbar-nos? Ou seria simplesmente devolver-nos impávidos ao caminho da praça de alimentação, ansiosos por um Big Mac?</p>
<p><span style="color:#808080;">ps: este texto é fruto de uma longa conversa de bar, há alguns meses, com Simplício Neto, a quem dedico esse esforço e agradeço pela fundamental contribuição.</span></p>
<p><span style="color:#808080;">ps2: publicado originalmente na <a href="http://www.revistaprojecoes.com.br/site/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=127:a-servico-do-espectador-preguicoso&amp;catid=2:ensaio&amp;Itemid=5"><span style="color:#808080;">Revista Projeções</span></a>!</span></p>
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		<title>planetário</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 03:12:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>isaacpipano</dc:creator>
				<category><![CDATA[criações]]></category>

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		<description><![CDATA[O céu salpicado com pontos brilhantes feitos cidades perdidas em desertos vistas sob a altura do balão que mais alto consegue voar. “Será que na China tem mais postes que estrelas no céu?”, se questiona com vergonha de si. Acha graça e ensaia um sorriso que logo se esconde, solitário. Não há brisa, nem ruídos, &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2009/10/04/planetario/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=316&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;" align="center">O céu salpicado com pontos brilhantes feitos cidades perdidas em desertos vistas sob a altura do balão que mais alto consegue voar.</p>
<p>“Será que na China tem mais postes que estrelas no céu?”, se questiona com vergonha de si. Acha graça e ensaia um sorriso que logo se esconde, solitário. Não há brisa, nem ruídos, apenas uma negritude intensa com fendas brilhantes sobre sua cabeça. A Via Láctea contorna, qual um anel pela metade, uma ponta à outra manchando o céu com seu rastro de poeira de giz caucasiana.</p>
<p>“Sarah!”, grita uma voz do outro lado. Finge que não escuta permanecendo calada. As mãos dobradas, entrelaçadas nos dedos, sobre a barriga. No centro delas, se modela um orifício à espera de um arranjo de flores ou um buquê, como as bonecas e seus encaixes perfeitos para utensílios domésticos: vassouras, frigideiras, espanadores.</p>
<p>Num estalo, as luzes todas se apagam de uma só vez, deixando-a invisível.</p>
<p>“Vem, filha!” O pai abre a porta, permitindo que penetre um feixe de luz pelo globo até atingir a superfície na qual ela, ainda deitada, esperava.</p>
<p>“Posso ver mais um pouquinho?”</p>
<p>“Amanhã, meu anjo…”, tomando-lhe as mãos para, juntos, atravessarem o céu sem estrelas do lado de fora.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/isaacpipano.wordpress.com/316/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/isaacpipano.wordpress.com/316/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=316&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>o recontador de histórias</title>
		<link>http://isaacpipano.wordpress.com/2009/07/31/o-recontador-de-historia/</link>
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		<pubDate>Fri, 31 Jul 2009 16:11:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>isaacpipano</dc:creator>
				<category><![CDATA[início]]></category>

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		<description><![CDATA[O recontador de histórias Perseguira aquelas formas por meses. Conquistou-as pouco a pouco através de um esforço descomunal em se fazer perceber. Vencida, ofereceu: escreva algo que me convença. Após seguir metodicamente o mesmo ritual no quarto restante de suas noites, tomou-se por derrotado e, pela primeira vez, roubou palavras. Nos primeiros meses, desfilaram pelo &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2009/07/31/o-recontador-de-historia/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=333&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2 style="text-align:center;">O recontador de histórias</h2>
<p>Perseguira aquelas formas por meses. Conquistou-as pouco a pouco através de um esforço descomunal em se fazer perceber. Vencida, ofereceu: escreva algo que me convença. Após seguir metodicamente o mesmo ritual no quarto restante de suas noites, tomou-se por derrotado e, pela primeira vez, roubou palavras.</p>
<p>Nos primeiros meses, desfilaram pelo mundo amando-se como os casais recentes. Passada a breve euforia, sentiu uma necessidade incontrolável de escrever. Recusou a cama compartilhada todas as noites e o sexo sem censura. Ela reagiu mal, enciumada, cobrando que ele se decidisse. Pediu que fosse compreensiva, pois nada o atraía mais que as palavras. Nem seus seios ou a nudez estampada. Jurava dedicação e fidelidade exclusivas, mas a trocava toda excitada por um verbo no particípio. Naquele estado de semiconsciência, somava aos desejos sinestesias e, de repente, a tinha a lamber morfemas. Fascinado, esquecia-a por contrações. Entre os dois, havia o desejo da carne; entre os outros dois, o mergulho no abismo da alma. Entre o romance, ao menos uma dúzia de paranomásias.</p>
<p>Abandonavam-no febris as mesóclises. Ele as mordia e sublinhava para que não se fossem. Pegava-as de quatro, puxava pelos cabelos, pelas aspas, e antes que pudesse atingir o clímax de seu capítulo: perdia o ritmo. Espalhavam-se pêlos e letras. Iam-se as duas. Restava o ponto. E o choro. Decerto que não possuía inclinação.</p>
<p>Ao passo de alguns dias encontrou-se atordoado e consumido. Dedicou-se, então, à leitura acelerada de tudo o quanto pudesse. Correu por bibliotecas, buscou acervos e antigos sebos, viu sua modéstia tornar-se, pouco a pouco, poço sem fim de uma busca insuperável pela visão ampla e etérea da literatura. Trocou o orgasmo mortal pela beleza eterna das metáforas. Ao longo da História decorou os nomes ainda que aleatoriamente dos menos nobres, requintados e benferidos poetas. Conheceu um a um dos prosadores – soberbos e medíocres. Reteve na memória trechos e citações completas, datou livros em ordens diversas que ultrapassaram a metodologia das enciclopédias. E a cada uma dessas leituras descobria-se de uma simplicidade criativa tal que palavras-suas não lhe vinham.</p>
<p>Assim, subsistiu através de um século assumindo o compromisso único de ser-usurpador. Dissecou o conteúdo de infinitas páginas organizando-as em centenas de outras variáveis, transformando-as em milhares de livros idênticos, diferentes em suas ordenações; fez de Cervantes, Zola e Gógol novelas romanescas, decompôs arcádias em cubismos, em sua generosidade desfez poéticas e consagrou épicos indesejáveis. Ensejou tornar-se, em sua farsa, autor único, definitivo e indecifrável [por trás de uma série singular de ficções fraudulosas].</p>
<p style="text-align:center;">*</p>
<p>Culminou com a descoberta de seu Éden, passados outros cem anos. Um amontoado de pilhas disformes, algumas menos modestas, sensação intensa de ruir constante; uma infinitude de textos deixados pelo seu genial criador. Vislumbrou-se, por ínfimo instante, a capacidade de um autor único capaz de transitar pelo todo, mas os livros acabaram por se tornar recônditos atribuídos a uma entidade genérica [pois se julgou que a homem algum se admitira tempo e qualidade suficientes para o contento]. Nunca se soube, porém, o que o homem saboreou do conhecimento em troca de sua perdição: seu corpo, absorvido pela paranóia das fábulas roubadas, foi se esvaziando – até escorrer pelo tempo – com a odisséia de sua própria história: embora não tivesse escrito nada em absoluto.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/isaacpipano.wordpress.com/333/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/isaacpipano.wordpress.com/333/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=333&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>três histórias geladas</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 03:16:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>isaacpipano</dc:creator>
				<category><![CDATA[criações]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Letônia as pessoas não falam Um trem aguarda entonando enquanto de pé ao seu lado um homem sem barba observa uma placa com dizeres initenligíveis para sua proficiência no idioma desconhecido. Busca algo lançando olhares pelo portal. Às suas costas, a extensa planície tangencia o infinito. As silhuetas das montanhas, recobertas por tapetes de &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2008/08/14/tres-historias-geladas/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=322&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align:left;" align="center"><strong><span class="Apple-style-span" style="font-size:12px;line-height:18px;"><em>Na Letônia as pessoas não falam</em></span></strong></h1>
<p>Um trem aguarda entonando enquanto de pé ao seu lado um homem sem barba observa uma placa com dizeres initenligíveis para sua proficiência no idioma desconhecido. Busca algo lançando olhares pelo portal. Às suas costas, a extensa planície tangencia o infinito. As silhuetas das montanhas, recobertas por tapetes de girassóis, denotam-se numa posição eqüidistante entre o além e o fim, num plano longínquo e difuso.</p>
<p>Ele imagina que pode ser hora de voltar. Atreve-se a indagar algo à voz, mas cala-se vaporizando a sílaba impronunciável. O homem retorna ao trem que bufa raivoso e em pouco parte na procura de uma outra parada que lhe seja ainda menos reconhecível.</p>
<h4><em>Fábula de Natal</em></h4>
<p>O gordinho, calças brancas com grandes bolas vermelhas, varre o gelo do alpendre. Assovia, deixando inchadas as bochechas gordas escondidas pela volumosa barba branca. Um pequeno balão rosado, com dois olhos minúsculos parecendo pontos, no lugar do rosto.</p>
<p>Encoberto por galhos, camuflado nos pinheiros, o homem sente suas pernas congelarem feito blocos maciços de concreto. A esta altura, a botina pesa tonelada e o corpo lamenta a dor causada pelo frio.  Ele se sente como no interior de um brinquedo natalino, aonde uma redoma de vidro sustentada por uma base escura, protege uma pequena maquete: um casebre, árvores, bonecos ou flocos de neve que se balançam e caem como se viessem realmente do céu.</p>
<p>Os flocos flanam sensíveis à corrente de ar que os leva pra-frente-pra-trás baleando. Ele ajusta a calibragem para trinta metros. Certeiro, o tiro atinge o abdômen do gordinho com uma velocidade suficiente para derrubar um rinoceronte. O deslocamento da bala tremula o ar, que punge unissonamente para então convergir-se numa profusão de barulhos. Renas correm soluçando com o clamor produzido pelo impacto, e de dentro da casa um grito de mulher resplandece comunicando que o Natal acaba de se acabar.</p>
<h4><em>Romance em 2046</em></h4>
<p><em>Happy Together </em>o deixara triste. Pensou em ligar pra ele assim que terminou de assistir ao filme, mas reprimiu-se lembrando que as últimas palavras haviam sido decisivas. Como chovia, deixou-se passar o dia todo de roupão, meias e sandália. Viu notícias tristes no Clarín. Sentiu nojo em sua hipersensibilidade abalada e quis buscar sossego da vida longe de tudo que lhe fazia mal.</p>
<p>Não consegue desvencilhar-se da imagem dele desesperado em seu próprio choro, na maneira como traduzia a dor exorcizada pelas lágrimas. Ouviu-o vomitar as maiores frustrações, beijaram-se aflitivamente até o começo da noite. O avião partiria em menos de uma hora, era preciso ir. Rasparam as barbas num último ímpeto carinhoso e explosivo de paixão. O amor era, afinal, uma questão de timing.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/isaacpipano.wordpress.com/322/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/isaacpipano.wordpress.com/322/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/isaacpipano.wordpress.com/322/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/isaacpipano.wordpress.com/322/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=322&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>a primeira vez</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Aug 2008 03:14:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>isaacpipano</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[“Qual você quer usar hoje?”, apontando para os pacotinhos coloridos. Ela se dirigia a ele com essa mesma pergunta sempre antes de começarem. Vestia branco, calça justa demarcando as coxas, os cabelos presos num rabo de cavalo e o óculos de armação quadrada vermelho, que a deixava com ares de intelectualidade. Estirado – enquanto ela &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2008/08/13/a-primeira-vez/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=319&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1><span class="Apple-style-span" style="font-size:12px;font-weight:normal;line-height:18px;">“Qual você quer usar hoje?”, apontando para os pacotinhos coloridos. Ela se dirigia a ele com essa mesma pergunta sempre antes de começarem. Vestia branco, calça justa demarcando as coxas, os cabelos presos num rabo de cavalo e o óculos de armação quadrada vermelho, que a deixava com ares de intelectualidade. Estirado – enquanto ela buscava os pacotinhos plásticos – ficou olhando o sutiã através da blusinha entreaberta. Era vermelho. Idolatrava aquele corpo em todas as suas dobras.</span></h1>
<p>A primeira vez foi por acaso. Um amigo que usara os serviços lhe contou, inclusive com detalhes dos procedimentos. “Satisfação total”. Raul copiou o número escondendo dos engraçadinhos que pudessem ouvir sobre o que ele e o amigo falavam e voltou pra casa, após o colégio, bastante intimidado. Por três dias o papelzinho amarelo esteve sobre a cômoda ao lado do cd do <em>Libertines</em>, intocável. A mãe passava o dia todo na casa, e Raul suspeitava que desde alguns meses ela vinha escutando suas ligações. Quando juntou a coragem necessária para telefonar, lhe informaram que ela não estava: voltaria em uma semana. Inicialmente, ficou enfurecido, mas acabou por esquecer terminantemente o assunto, ao menos pelo prazo de sete dias.</p>
<p>Na segunda vez que telefonou foi uma outra mulher quem atendeu. Conversaram rapidamente por intermédio da dona da voz no gancho; ela ofereceu o preço, ouvido distante em segundo plano, e ele barganhou. Conseguiu na segunda tentativa: “cento e cinqüenta: nem pra mim, nem pra você”, disfarçando uma maturidade que seria desmascarada tão logo ela o visse com aquelas roupas e o cabelo desgrenhado. Era um talento seu esse de ser tão prudente e ardiloso no telefone, embora – fosse óbvio – fisicamente quaisquer de suas tentativas caíssem por terra, como no dia em que rasgou o convite de aniversário de uma garotinha de sua classe por pensar que fosse cartinha de amor.</p>
<p>No dia em que marcaram, aconteceu do relógio não despertar pro colégio, fazendo Raul voar de casa, esquecendo-se de pegar o dinheiro guardado num dvd do <em>Robert Rodriguez</em>. Entrou pelo portão do fundo do colégio, guardado ferozmente pela Dona Cida, uma simpática senhora que deixava os alunos “fugirem” das aulas em troca de “<em>docinhu</em> o pastel”: a simples senha para a liberdade. Entregou um pacotinho branco com balas de goma compradas pouco antes no bar da esquina, subiu as escadas e chegou a tempo de entrar na sala antes que a professora de geografia fizesse a chamada.</p>
<p>“O carro da minha mãe é a álcool, professora”. Ela o olhou por trás dos óculos, como se já se conformasse com a mesma desculpa dita após trinta anos, e assentiu marcando com caneta azul a presença na lista. Todos da sala o olhavam, ou pelo menos isso era o que sentia da porta de entrada à carteira no fundo da quinta coluna, difícil quanto estudar alemão. O amigo olhou denunciando que aquele seria o dia.</p>
<p>“E aí, depois da aula?”</p>
<p>“Fala baixo”, cobrindo com a mão a boca em resposta aos olhares indiscretos dos colegas sentados próximos. “Esqueci o dinheiro em casa, preciso voltar antes de ir lá”.</p>
<p>“Cento e cinqüenta?”, fazendo uma careta engraçada por causa do aparelho.</p>
<p>“Aham… foi o preço que ela te fez também?”</p>
<p>“Já te falei, fica tranqüilo. Você vai ver que na hora dá tudo certo, esse nervosismo aí é à toa”.</p>
<p>Raul não conseguiu prestar atenção em absolutamente nada do que foi dito. Tentou se distrair com a edição de luxo do <em>Piada Mortal</em>, porém, nem os quadrinhos surtiram efeito. Com o passar das horas, um estágio de ansiedade consumiu-o inteiramente. Suava frio, sentia fortes cólicas no estômago e por um segundo pensou que sua pressão abaixaria até desmaiar caindo no assoalho. Seria melhor morto, pensou com raiva de si mesmo por estar vivendo aquilo.</p>
<p>Voltou pra casa decidido a abandonar todo o planejado. Ainda era muito novo, poderia esperar por mais alguns anos. Passou pela cozinha, viu que a mãe ainda não havia chegado do trabalho, arrancou um pedaço do bolo – que se esmigalhou pelo piso da cozinha. No caminho, ligou o som na mesma rádio que estava e foi pro quarto. Em menos de dez minutos já dormia profundamente quando o telefone tocou, impiedoso, pouco disposto a parar. Levantou, o rosto vermelho marcado por causa da colcha de retalhos da cama e uma mancha de baba sobre a bochecha, atordoado. Correu para o primeiro piso, não a tempo de atendê-lo. Já alcançava o terceiro degrau quando o “ring, ring” qual ambulância em plena atividade iniciou seu segundo ataque.</p>
<p>“Alô”, a sensualidade inegável daquela voz o deixou imediatamente atônito. Como em situações de estresse, o corpo não respondia. Pasmado, esperou que ela perguntasse algo. Nunca haviam se falado, mas conhecia aquela voz desde um tempo em que jogava bolinhas de gude.</p>
<p>“Alô”, repetiu a voz. Ele bateu o telefone na madeira do criado disfarçando um ruído qualquer, empunhou o monofone disposto a defender-se.</p>
<p>“Oi, alô”, trêmulo e infantil, “desculpa, o telefone está com problema e sempre sai do gancho”, tentando voltar ao tom autoritário como lhe era praxe no discurso telefônico.</p>
<p>“Você não vem?”. A pergunta caiu em seus ouvidos como um pedido, ascendendo um imediato desejo de estar com ela naquele instante, esquecendo-se de todo o incômodo que a situação lhe causava. Qualquer desculpa soaria perceptivelmente infeliz para aquela mulher, pensava, acostumada a lidar com isso diariamente. Ousou ser sincero.</p>
<p>“Tinha esquecido o dinheiro aquiem casa. Marcamospra outro dia?”</p>
<p>“Não, tudo bem. Você chega em quanto tempo?”</p>
<p>Por que não havia pensado em uma desculpa? Era só dizer que estava doente, um braço ou dente quebrado qualquer, não lhe questionaria, voltaria a dormir e esse dilema estaria, temporariamente, suspenso.</p>
<p>“Quinze minutos”.</p>
<p>“Está bem, estou te esperando”.</p>
<p>O amigo lhe dissera mesmo que ela tinha um trato especial com garotos daquela faixa etária, mas ele não imaginava que fosse assim. Parecia uma perseguição, não havia mais como ficar livre. O que tinha que ser feito devia mesmo ser feito, e rápido. Ouviu o barulho do carro estacionando na garagem; estava todo amassado por causa do sono, ainda desconcertado com o telefonema. Mesmo assim, correu a mochila no quarto, calçou o tênis com os calcanhares por cima da língua, desceu até o primeiro andar e saiu pelos fundos da cozinha antes que aquela mulher megera em crise de meia idade o encontrasse em casa.</p>
<p><em>O dinheiro</em>. Fez o trajeto inverso, e no caminho um vaso quase viu seus dias contados, não fosse o próprio pedestal encostar-se ao sofá evitando um desastre sem precedentes.</p>
<p>Estava suado e desarranjado. Pensou, sob tais condições, que alguns dos momentos mais importante da vida de cada um deve mesmo ser presenciado apenas por essa pessoa, e que no final disso tudo – se sobrevivesse intacto – escreveria a história desta aventura. Talvez por isso os homens velhos gostassem, como seu avô gostava, tanto de histórias: pois alguns dos momentos espetaculares são individuais, talvez nunca antes compartilhados. Mas não era hora pra epifanias.</p>
<p>Atravessou a portinha minúscula, imperceptível vista rapidamente por quem passa na rua, sem hesitar. Porém, ao vê-la sentada esperando-o atrás do balcão, com os cabelos negros esparramados sobre o corpo, mastigando a cutícula com a boca ao som de uma rádio sertaneja vinda de algum portátil no fundo do corredor; estremeceu.</p>
<p>“Achei que você não viesse mais”. Ele entrou com passos vagarosos. De pé, sorriso no rosto, ela tocou seu ombro conduzindo-o pelo corredor.</p>
<p>*</p>
<p>Pegou o guardanapo, limpou-se ainda um pouco atordoado enquanto ela o observava ao mesmo tempo em que preparava o lugar para o próximo.</p>
<p>“Daqui a três semanas?”, disse fitando-a, incrédulo, deslumbrado com o cheiro doce que contaminava seu corpo, tentando guardar aquela imagem intacta para a próxima vez.</p>
<p>“Sim, e não se esqueça do fio dental!”</p>
<p>“Juro que não vou esquecer”, jurando fidelidade eterna.</p>
<p>Levantando-se da poltrona sobe-desce automática enquanto olha o sutiã vermelho através da blusinha entreaberta pela última vez até três semanas, ele pensa que poderia ficar sentado ali a vida inteira.</p>
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		<title>corre, cotia</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Aug 2008 03:17:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>isaacpipano</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Após o três! começaríamos a correr. Eu apertava firmes os pés contra o assoalho – uma terra fininha marrom clara -, pezinhos descalços de unhas bem feitinhas e irremediavelmente imundos, iguais ao resto todo do corpo. Espreitava com o cantinho dos olhos pra ver se ninguém ia queimar a largada, o que, caso acontecesse, obrigaria a todos &#8230;<p><a href="http://isaacpipano.wordpress.com/2008/08/10/corre-cotia/" class="more-link">Ler mais</a></p><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=isaacpipano.wordpress.com&amp;blog=5088277&amp;post=324&amp;subd=isaacpipano&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align:left;" align="center"><span class="Apple-style-span" style="font-size:12px;font-weight:normal;line-height:18px;">Após o <em>três!</em> começaríamos a correr. Eu apertava firmes os pés contra o assoalho – uma terra fininha marrom clara -, pezinhos descalços de unhas bem feitinhas e irremediavelmente imundos, iguais ao resto todo do corpo. Espreitava com o cantinho dos olhos pra ver se ninguém ia queimar a largada, o que, caso acontecesse, obrigaria a todos ter que repetir sistematicamente o rito.</span></h1>
<p>Mamãe nos deixava, logo cedo, na casa de vovó. Chegávamos a tempo de encontrar posta e cheia de delicadeza a mesa com meiguices e requintes que naquela época eu não notava, ou se via, não compreendia. Diferente da geléia de jabuticaba, que se tornara amiga íntima sobre as torradinhas ou os pães caseiros desde o último inverno. De tudo, nada me apetecia mais que o pão caseiro. A gente mal olhava as frutas picadinhas, postas em potes no número exato dos netos – mamões, bananas, maçãs, goiabas, melões –; vovó providenciava uma quitanda e as dispunha manhã após manhã sem nunca, entretanto, cobrar que as tigelas fossem tocadas. Se mamãe deixasse, eu viveria daquele pão caseiro com margarina e leite com chocolate, bem gelado, sempre que tivesse fome, ou pura gula.</p>
<p>Magicamente, a toalha – que se sujava todos os dias graças à famigerada geléia e minha total inaptidão com os talheres – estaria limpa no dia seguinte (fui descobrir anos depois que vovó, logo que deixávamos a mesa pra correr no quintal, lavava diariamente a mesma toalha, por puro maneirismo). Ainda assim, me dedicava àquele prazer malicioso de devorar pão caseiro com geléia e margarina.</p>
<p>Na medida em que o cheiro das coisas quentinhas começava a adentrar o corredor, meus primos, com olhos grudados de remelas, acordavam. O estômago roncava mais alto do que eles próprios, então acordavam sem que ninguém lhes pedisse. Pensando assim, é estranho pensar como nos deixávamos cair da cama tão facilmente as sete e pouco da manhã sem que nenhum adulto tivesse que implorar de joelhos para abrirmos os olhos. A hipótese de perder alguma brincadeira, alguma piada ou alguma qualquer, não se cogitava. “Bom dia”, entretanto, era uma expressão tão conhecida a nós quanto хороший день ou outro qualquer de seus verbetes. O Raphael e o Thiago sentavam juntos, lado a lado, pra fazer competição de sanduíches. Colocavam, sem ordem ou preocupação gustativa, tudo o que encontrassem sobre a mesa: diversas fatias de mussarela, presunto, queijo fresco, margarina, as inúmeras geléias, e no fim do trabalho os lanches ficavam tão grandes que mal cabiam naqueles trituradores de alimentos disfarçados de bocas. Só pra não empatar e acirrar a disputa, o Raphael buscava na cozinha um pote de ketchup e derramava sobre o pão, desmantelado, enquanto todo mundo assistia fazendo cara de nojo. <em>Você é porco</em>, o Thiago dizia. E cada um se voltava para o seu próprio prazer.</p>
<p>A tensão prévia se seguiria de um disparo de pernas curtas, esguias e velozes. O universo ecoava distante em nossas cabeças, resumido no instante entre o impulso que nos levaria à frente e aquele silêncio sepulcral. Ouvíamos os pássaros, os carros ao longe na estrada, a respiração do inimigo parado em posição de ataque ao lado. Éramos capazes de ouvir até mesmo pensamentos, e numa dessas, ouvi os do Pedrinho, escondendo que quebrou meu boneco dos c<em>omandosemação</em>. Nem fiquei bravo, poxa, eu estava em domínio particular. Ousei ouvir um pouco mais prendendo a respiração até ficar quase em fôlego, só que pensei que o Pedrinho pudesse também estar ouvindo pensamentos: e se ele descobrisse que pusemos, o Thiago e eu, pimenta no seu danone?</p>
<p>Aqueles três segundos eram eternos, duravam infinitas vezes mais do que a própria competição. Na platéia estavam o caçula, Gabriel, ainda frágil demais para nossos jogos furiosos; Juliana, a única dama entre os sete jovens ogros; e também vovó, com o cabelo idêntico por mais de quatro décadas, intacto em seus fios, corte, volume e coloração. Nela, o tempo se ausentara.</p>
<p>Apesar do café farto e de muita atenção, vovó nunca foi de nos por no colo, contar histórias ou apartar os violentos arranca-rabos por onde rolávamos no chão e éramos obrigados a encerrar as brigas em comum acordo, antes que formigas gigantes e vermelhas nos comessem vivos; ou quando o corpo todo pinicava fazendo ocuparmos a mão com a coceira, restando apenas pontapés e encontros de barriga violentos que tremiam além do trópico de câncer. Acho que foi o Thiago quem leu num daqueles guias dos curiosos (como era curioso!) sobre o trópico de câncer. Ficou todo contente por semanas só porque nascera em junho e podia, assim, se vangloriar por ter um signo que tinha um trópico só seu. Na verdade, ninguém sabia o que significava trópico, nem o Thiago, mas disfarçava dizendo que não nos contaria o significado com aqueles<em>nananaranána</em> que as crianças levadas fazem mostrando a língua, as mãos espalmadas, os dedos abertos e a têmpora pressionada pelo dedão. <em>Nananaranána</em>.  Eu me irritava com o Thiago e nem terminava a comida do almoço, porque ele fazia questão de retomar o assunto do trópico na frente dos adultos. Era consenso que, por causa do trópico, o Thiago fosse o mais esperto (embora fosse mesmo o melhor nos jogos de tabuleiro, na corrida e, especialmente, pra subir em árvores). Bom que meu irmão também não tinha paciência e ia comigo pra sala aonde meu avô – que pouco falava conosco – via algum telejornal. A gente sentava ao lado dele esperando o jornal acabar mesmo sem entender quase nada do que diziam, por pura desatenção (preferia olhar os livros intermináveis nas estantes da biblioteca, porém sem nunca ousar tocá-los graças a renite que me empipocava todo). Ainda assim, nos sentávamos esperando a hora em que ele se viraria pra dizer “<em>podem mudar de canal”</em>. Ele se levantava, corria as chaves do carro, o maço de cigarro e sumia. Nunca soube, naqueles anos, o que vovô fazia ou pra onde ia depois da uma. Pra mim, a vida dele se resumia àquele curto espaço do dia onde se sentava elegantemente (como era elegante!) de pernas cruzadas, uma sobre a outra, vendo telejornais.</p>
<p>A vovó estava chorando na sala, minha mãe ao lado dela numa cadeira com os olhos vermelhos, e eu com um carrinho fazendo barulho de motor tentando descobrir o que acontecia. Só de ver minha mãe chorando eu tinha vontade de chorar também. Era assim com todo mundo, principalmente com meu irmão. Bastava eu o ver com aqueles olhos de correr navios que logo todo mundo tinha que voltar a atenção pra mim. Culpa de ele ter se tornado mais introvertido ao longo dos anos talvez seja mesmo minha (e hoje, às vezes, eu imploro pra que ele me olhe com olhos de cortar cebola).</p>
<p>As duas, bem quietas, naquela mesa cujas manhãs fazíamos a alegria, e se transformara imperceptível num refugo da solidão. Sabia que era o vovô, que coisa boa não era. Fiquei me perguntando por que mamãe simplesmente não abraçava a vovó, por que reprimiam tanto aquela vontade de falar e não quebravam logo a barreira que se punha, invisível, entre as duas (como um dos nossos heróis preferidos que quebrava campos magnéticos com os braços! Demais!). Mesmo com todo o silêncio da sala, nunca consegui descobrir o que estavam pensando; esforcei-me pra prender a respiração e transpor as paredes daquelas cabeças, ainda que só tenha escutado o som universal de panela no fogo na cozinha. Subitamente, porém, passei a entender o porquê de ele sair todo o dia após a uma. Compreendi também porque o tempo, pra vovó, não passava mais e porque aqueles cabelos eram o mesmo de uma outra época em que ela e ele sorriam, na beira de um rio, de chapéus. O barulho do motor do meu carro foi diminuindo aos poucos, até que meus olhos estavam como eu os previra.</p>
<p><em>Já!</em><em>           </em></p>
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