Se a crítica musical e as famosas peleas propostas pelos malfadados críticos deixaram de ser convenção há anos, dois álbuns recém-lançados estão sendo importantes por suscitar esse mesmo espírito-debatedor no cenário apático da crítica de música no Brasil – que nem crítica de música é, ou você lê alguma que questiona o uso de um solo em escala cromática ou bases melódicas menores? De qualquer forma, não é hora pra meter o bedelho em tais questionamentos.
O Hermano Marcelo Camelo lançou seu disco Sou – com gracinha concreta na capa que permite a leitura contrária Nós -, recebendo menções imediatas ao caráter excessivamente bossa novístico – para o mal – ou condecoraçóes e associações à obra de um Caymmi ou um Chico – para o bem. Não gostei, não acreditei muito na contemplação e nem em tanta singeleza. O mar, as gaivotas e o violão de Camelo soam mais pasteurizados que reais. Não há muita poesia que se pareça verossímil. Com a participação da jovem-Bob Dylan brasileira, a pequenina Malu Magalhães, a fofura chega a níveis exorbitantes, condicionando uma reflexão direta: o que pretende Marcelo Camelo?
Quando do fim dos Los Hermanos, originou-se pergunta imediata quanto à solução admitida por cada um de seus integrantes na construção de uma obra posterior. De certa forma, Camelo passou a perseguir uma postura pró-Caetano de essência excessivamente orla-carioca. Tentando aliviar a distância existente entre a cena musical no Brasil (por isso pró-Caetano, ao mesmo tempo cult e total) e o Los Hermanos – que é uma fábula de fãs fervorosos -, o carioca aproveitou a deixa do Acústico MTV Sandy e Júnior para engatar: assim entrava em cena com sua nova estratégia de persuasão e divulgação. Lançava-se a imagem do novo Marcelo Camelo desvinculado da banda que o fez se tornar messias de uma geração de garotas de guarda-chuva. Enquanto isso, Amarante grava com Devendra Banhart, vislumbra projeto com o bateirista-brasileiro do Strokes, Fabrizio Moretti, e arremata em ponta no cinema que rendeu surpresas e suspirinhos em Meu Nome não é Johnny.
Há uma sensível diferença de valoração e escolhas nos dois propóstios. Enquanto Amarante focou-se num projeto internacional de parcerias jovens e opções musicais menos cheias de brasilianidade – em excesso na Orquestra Imperial -, pouco preocupado com o reconhecimento no Brasil e mantendo-se à margem da publicidade, Camelo iniciou a construção de um perfil do novo intelectual de sapatos brancos. Ele é o próprio rapaz de classe média alta, elegante, que lê Sarte e chora, assim como chora também ao ouvir os sambas do começo do século com olhares lânguidos.
Na crítica dos impressos endeu irônias deslavadas do normalmente radical Thiago Ney [que não gosto muito]. Não me lembro na íntegra, mas o comentário fazia referência à chuva de e-mails que recebeu em resposta às suas análises do Sou, quando fãs de Camelo sentiram-se humilhados pelas duras ponderações de Thiago. Ele finalizou os comentários e sua opinião ao dizer que acreditava mesmo que o show de Camelo pudesse ser mais interessante que o disco, pois até “meu primo de Botucatu pintando uma cerca é mais animado”.
Mas foi o lançamento de Dig Out Your Soul, do Oasis, que veio a engrossar o caldo: quais os limites entre música-obsessão-estética sonora? A experiência do pop é mesmo de existência sensível e visceral, como faz referência Simon Reynolds? Devemos manter a idolatria aos ídolos em vigília constante ou vibrar mesmo em suas insignificâncias?
Na Revista Wave, Felipe Arra e o editor Daniel Faria (ambos meus amigos) travam batalha - com direito a agressões verbais – nada silenciosa de elogio ao espírito crítico: a tríade bater, levar, devolver! Confiram a resenha e os comentários aqui.
De qualquer forma, há que se considerar a validade da crítica no curso das coisas. Assim como ponderar, decantando calmamente o excesso de hormônios, para que seja possível uma análise destituída de privilégios. Porém, se não há paixão, não há escrita. Então vai o paradoxo: amar/odiar nas representações ou ser-imparcial e dotar de lógica o discurso retórico da crítica?


