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Ele não virou bolor
O A e o Z de um mutante: recém-lançado documentário retrata a emocionante e confusa trajetória de Arnaldo Baptista
“Eles são melhores que os Beatles […] Em uma palavra? Bom pra caralho”, encerra Devendra Banhart num português mal pronunciado. A diferença estaria no fato de que os Beatles possuíam inúmeras referências – do pop à música indiana – exploradas em diversas músicas, enquanto os Mutantes construíam “partes” absolutamente singulares em cada música, como se houvessem músicas diversas dentro de cada uma de suas canções.
O depoimento de Devendra configura-se como apenas mais um – de uma série longa de renomes da música tupiniquim e internacional – no documentário Lóki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle. O filme, produzido pelo Canal Brasil, não entrará na disputa de mercado por salas e público, já que será apenas exibido em festivais e, posteriormente, no próprio canal. Os altos valores pagos aos direitos autorais no cinema inviabilizariam a produção de novos documentários pelo canal, que se baseia em filmes realizados através de parcerias diversas.
Exibido na Mostra Internacional de Cinema, não houve quem ficasse sentado após a exibição. Não porque o filme se valha como cinema, não porque as opções estéticas tenham muito mérito, não porque o didatismo cronológico com o qual o diretor trabalhou não se esgote rapidamente. Mas talvez graças à honestidade com que a obra nos prende, com sua aura constante de redenção, como se fosse o pagamento de uma dívida ainda em vida.
Ao seguir a trajetória de Arnaldo, como uma biografia filmada, recorrendo ao arquivo fotográfico familiar, aos vídeos da época dos festivais, a entrevistas retiradas de outras emissoras; Paulo extrapola a noção que já havia sido construída por Carlos Calado na biografia “A Divina Comédia dos Mutantes”: Arnaldo Baptista, de fato, é um gênio e os Mutantes foram, de fato, geniais.
Não há concessão quanto a esse questionamento: Rogério Duprat, Toninho Petikov, Sean Lennon, todos o consideram como a figura mais importante do cenário musical no país desde 60. Tom Zé confessa que a eles, músicos letrados, não lhes restava ensinar ao garoto sobre a atonalidade da escola de Viena, nem sobre vanguardas musicais.
Sérgio afirma que ele e Liminha não souberam, quando abandonaram Arnaldo e seguiram com Os Mutantes, o quanto à frente o irmão estava, e pede desculpas em público. Enfim, como se tentassem recuperar o engano que levou Arnaldo Baptista a se afundar num universo restrito e particular, único, entorpecido com viagens lisérgicas de LSD, profecias mitológicas e a dor incontrolável dos enganos cometidos.
Difícil não se envolver afetivamente com o filme, com os relatos apaixonados e com a feliz tentativa de retornar ao banco dos memoráveis um homem que teve de saltar do quarto andar de um hospital psiquiátrico para tentar se livrar das amarras da incompreensão. Acima de tudo, o filme é um elogio à liberdade, à vida, à exaltação do indivíduo. É também um agradecimento pela recompensa deixada pelo legado de três garotos que souberam compreender o seu tempo e ser argutos o bastante para sugarem dele o que havia de melhor, transformando-o numa experiência diária.
O maior dos crimes cometidos a Arnaldo foi justamente o de não ter se deixado morrer aos trinta anos, época em que se fazem os mártires e se eternizam os mitos. Para suprir isso, talvez Paulo tenha feito o filme – como uma outra forma de eternizar um homem que foi vítima e ator de catástrofes e intolerâncias sociais, psicológicas e sentimentais.
Foram mais de vinte anos até que os Mutantes voltassem ao palco e se encontrassem numa noite de epifania no Parque do Ipiranga, rodeados de pessoas que saíram de suas casas não apenas para ouvir e ver uma banda de rock, mas para ouvir e ver um homem arredio de óculos dizer qualquer bobagem. No livro de Carlos Calado, a biografia se encerra antes desse encontro, carregada de infindável tristeza, cheia de nós a serem dados.
Lóki, o filme, encerra a trajetória. Aborda o começo. O fim. Como ele previra vinte anos à nossa frente.











