três histórias geladas
Na Letônia as pessoas não falam
Um trem aguarda entonando enquanto de pé ao seu lado um homem sem barba observa uma placa com dizeres initenligíveis para sua proficiência no idioma desconhecido. Busca algo lançando olhares pelo portal. Às suas costas, a extensa planície tangencia o infinito. As silhuetas das montanhas, recobertas por tapetes de girassóis, denotam-se numa posição eqüidistante entre o além e o fim, num plano longínquo e difuso.
Ele imagina que pode ser hora de voltar. Atreve-se a indagar algo à voz, mas cala-se vaporizando a sílaba impronunciável. O homem retorna ao trem que bufa raivoso e em pouco parte na procura de uma outra parada que lhe seja ainda menos reconhecível.
Fábula de Natal
O gordinho, calças brancas com grandes bolas vermelhas, varre o gelo do alpendre. Assovia, deixando inchadas as bochechas gordas escondidas pela volumosa barba branca. Um pequeno balão rosado, com dois olhos minúsculos parecendo pontos, no lugar do rosto.
Encoberto por galhos, camuflado nos pinheiros, o homem sente suas pernas congelarem feito blocos maciços de concreto. A esta altura, a botina pesa tonelada e o corpo lamenta a dor causada pelo frio. Ele se sente como no interior de um brinquedo natalino, aonde uma redoma de vidro sustentada por uma base escura, protege uma pequena maquete: um casebre, árvores, bonecos ou flocos de neve que se balançam e caem como se viessem realmente do céu.
Os flocos flanam sensíveis à corrente de ar que os leva pra-frente-pra-trás baleando. Ele ajusta a calibragem para trinta metros. Certeiro, o tiro atinge o abdômen do gordinho com uma velocidade suficiente para derrubar um rinoceronte. O deslocamento da bala tremula o ar, que punge unissonamente para então convergir-se numa profusão de barulhos. Renas correm soluçando com o clamor produzido pelo impacto, e de dentro da casa um grito de mulher resplandece comunicando que o Natal acaba de se acabar.
Romance em 2046
Happy Together o deixara triste. Pensou em ligar pra ele assim que terminou de assistir ao filme, mas reprimiu-se lembrando que as últimas palavras haviam sido decisivas. Como chovia, deixou-se passar o dia todo de roupão, meias e sandália. Viu notícias tristes no Clarín. Sentiu nojo em sua hipersensibilidade abalada e quis buscar sossego da vida longe de tudo que lhe fazia mal.
Não consegue desvencilhar-se da imagem dele desesperado em seu próprio choro, na maneira como traduzia a dor exorcizada pelas lágrimas. Ouviu-o vomitar as maiores frustrações, beijaram-se aflitivamente até o começo da noite. O avião partiria em menos de uma hora, era preciso ir. Rasparam as barbas num último ímpeto carinhoso e explosivo de paixão. O amor era, afinal, uma questão de timing.
