a primeira vez

“Qual você quer usar hoje?”, apontando para os pacotinhos coloridos. Ela se dirigia a ele com essa mesma pergunta sempre antes de começarem. Vestia branco, calça justa demarcando as coxas, os cabelos presos num rabo de cavalo e o óculos de armação quadrada vermelho, que a deixava com ares de intelectualidade. Estirado – enquanto ela buscava os pacotinhos plásticos – ficou olhando o sutiã através da blusinha entreaberta. Era vermelho. Idolatrava aquele corpo em todas as suas dobras.

A primeira vez foi por acaso. Um amigo que usara os serviços lhe contou, inclusive com detalhes dos procedimentos. “Satisfação total”. Raul copiou o número escondendo dos engraçadinhos que pudessem ouvir sobre o que ele e o amigo falavam e voltou pra casa, após o colégio, bastante intimidado. Por três dias o papelzinho amarelo esteve sobre a cômoda ao lado do cd do Libertines, intocável. A mãe passava o dia todo na casa, e Raul suspeitava que desde alguns meses ela vinha escutando suas ligações. Quando juntou a coragem necessária para telefonar, lhe informaram que ela não estava: voltaria em uma semana. Inicialmente, ficou enfurecido, mas acabou por esquecer terminantemente o assunto, ao menos pelo prazo de sete dias.

Na segunda vez que telefonou foi uma outra mulher quem atendeu. Conversaram rapidamente por intermédio da dona da voz no gancho; ela ofereceu o preço, ouvido distante em segundo plano, e ele barganhou. Conseguiu na segunda tentativa: “cento e cinqüenta: nem pra mim, nem pra você”, disfarçando uma maturidade que seria desmascarada tão logo ela o visse com aquelas roupas e o cabelo desgrenhado. Era um talento seu esse de ser tão prudente e ardiloso no telefone, embora – fosse óbvio – fisicamente quaisquer de suas tentativas caíssem por terra, como no dia em que rasgou o convite de aniversário de uma garotinha de sua classe por pensar que fosse cartinha de amor.

No dia em que marcaram, aconteceu do relógio não despertar pro colégio, fazendo Raul voar de casa, esquecendo-se de pegar o dinheiro guardado num dvd do Robert Rodriguez. Entrou pelo portão do fundo do colégio, guardado ferozmente pela Dona Cida, uma simpática senhora que deixava os alunos “fugirem” das aulas em troca de “docinhu o pastel”: a simples senha para a liberdade. Entregou um pacotinho branco com balas de goma compradas pouco antes no bar da esquina, subiu as escadas e chegou a tempo de entrar na sala antes que a professora de geografia fizesse a chamada.

“O carro da minha mãe é a álcool, professora”. Ela o olhou por trás dos óculos, como se já se conformasse com a mesma desculpa dita após trinta anos, e assentiu marcando com caneta azul a presença na lista. Todos da sala o olhavam, ou pelo menos isso era o que sentia da porta de entrada à carteira no fundo da quinta coluna, difícil quanto estudar alemão. O amigo olhou denunciando que aquele seria o dia.

“E aí, depois da aula?”

“Fala baixo”, cobrindo com a mão a boca em resposta aos olhares indiscretos dos colegas sentados próximos. “Esqueci o dinheiro em casa, preciso voltar antes de ir lá”.

“Cento e cinqüenta?”, fazendo uma careta engraçada por causa do aparelho.

“Aham… foi o preço que ela te fez também?”

“Já te falei, fica tranqüilo. Você vai ver que na hora dá tudo certo, esse nervosismo aí é à toa”.

Raul não conseguiu prestar atenção em absolutamente nada do que foi dito. Tentou se distrair com a edição de luxo do Piada Mortal, porém, nem os quadrinhos surtiram efeito. Com o passar das horas, um estágio de ansiedade consumiu-o inteiramente. Suava frio, sentia fortes cólicas no estômago e por um segundo pensou que sua pressão abaixaria até desmaiar caindo no assoalho. Seria melhor morto, pensou com raiva de si mesmo por estar vivendo aquilo.

Voltou pra casa decidido a abandonar todo o planejado. Ainda era muito novo, poderia esperar por mais alguns anos. Passou pela cozinha, viu que a mãe ainda não havia chegado do trabalho, arrancou um pedaço do bolo – que se esmigalhou pelo piso da cozinha. No caminho, ligou o som na mesma rádio que estava e foi pro quarto. Em menos de dez minutos já dormia profundamente quando o telefone tocou, impiedoso, pouco disposto a parar. Levantou, o rosto vermelho marcado por causa da colcha de retalhos da cama e uma mancha de baba sobre a bochecha, atordoado. Correu para o primeiro piso, não a tempo de atendê-lo. Já alcançava o terceiro degrau quando o “ring, ring” qual ambulância em plena atividade iniciou seu segundo ataque.

“Alô”, a sensualidade inegável daquela voz o deixou imediatamente atônito. Como em situações de estresse, o corpo não respondia. Pasmado, esperou que ela perguntasse algo. Nunca haviam se falado, mas conhecia aquela voz desde um tempo em que jogava bolinhas de gude.

“Alô”, repetiu a voz. Ele bateu o telefone na madeira do criado disfarçando um ruído qualquer, empunhou o monofone disposto a defender-se.

“Oi, alô”, trêmulo e infantil, “desculpa, o telefone está com problema e sempre sai do gancho”, tentando voltar ao tom autoritário como lhe era praxe no discurso telefônico.

“Você não vem?”. A pergunta caiu em seus ouvidos como um pedido, ascendendo um imediato desejo de estar com ela naquele instante, esquecendo-se de todo o incômodo que a situação lhe causava. Qualquer desculpa soaria perceptivelmente infeliz para aquela mulher, pensava, acostumada a lidar com isso diariamente. Ousou ser sincero.

“Tinha esquecido o dinheiro aquiem casa. Marcamospra outro dia?”

“Não, tudo bem. Você chega em quanto tempo?”

Por que não havia pensado em uma desculpa? Era só dizer que estava doente, um braço ou dente quebrado qualquer, não lhe questionaria, voltaria a dormir e esse dilema estaria, temporariamente, suspenso.

“Quinze minutos”.

“Está bem, estou te esperando”.

O amigo lhe dissera mesmo que ela tinha um trato especial com garotos daquela faixa etária, mas ele não imaginava que fosse assim. Parecia uma perseguição, não havia mais como ficar livre. O que tinha que ser feito devia mesmo ser feito, e rápido. Ouviu o barulho do carro estacionando na garagem; estava todo amassado por causa do sono, ainda desconcertado com o telefonema. Mesmo assim, correu a mochila no quarto, calçou o tênis com os calcanhares por cima da língua, desceu até o primeiro andar e saiu pelos fundos da cozinha antes que aquela mulher megera em crise de meia idade o encontrasse em casa.

O dinheiro. Fez o trajeto inverso, e no caminho um vaso quase viu seus dias contados, não fosse o próprio pedestal encostar-se ao sofá evitando um desastre sem precedentes.

Estava suado e desarranjado. Pensou, sob tais condições, que alguns dos momentos mais importante da vida de cada um deve mesmo ser presenciado apenas por essa pessoa, e que no final disso tudo – se sobrevivesse intacto – escreveria a história desta aventura. Talvez por isso os homens velhos gostassem, como seu avô gostava, tanto de histórias: pois alguns dos momentos espetaculares são individuais, talvez nunca antes compartilhados. Mas não era hora pra epifanias.

Atravessou a portinha minúscula, imperceptível vista rapidamente por quem passa na rua, sem hesitar. Porém, ao vê-la sentada esperando-o atrás do balcão, com os cabelos negros esparramados sobre o corpo, mastigando a cutícula com a boca ao som de uma rádio sertaneja vinda de algum portátil no fundo do corredor; estremeceu.

“Achei que você não viesse mais”. Ele entrou com passos vagarosos. De pé, sorriso no rosto, ela tocou seu ombro conduzindo-o pelo corredor.

*

Pegou o guardanapo, limpou-se ainda um pouco atordoado enquanto ela o observava ao mesmo tempo em que preparava o lugar para o próximo.

“Daqui a três semanas?”, disse fitando-a, incrédulo, deslumbrado com o cheiro doce que contaminava seu corpo, tentando guardar aquela imagem intacta para a próxima vez.

“Sim, e não se esqueça do fio dental!”

“Juro que não vou esquecer”, jurando fidelidade eterna.

Levantando-se da poltrona sobe-desce automática enquanto olha o sutiã vermelho através da blusinha entreaberta pela última vez até três semanas, ele pensa que poderia ficar sentado ali a vida inteira.

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