corre, cotia

Após o três! começaríamos a correr. Eu apertava firmes os pés contra o assoalho – uma terra fininha marrom clara -, pezinhos descalços de unhas bem feitinhas e irremediavelmente imundos, iguais ao resto todo do corpo. Espreitava com o cantinho dos olhos pra ver se ninguém ia queimar a largada, o que, caso acontecesse, obrigaria a todos ter que repetir sistematicamente o rito.

Mamãe nos deixava, logo cedo, na casa de vovó. Chegávamos a tempo de encontrar posta e cheia de delicadeza a mesa com meiguices e requintes que naquela época eu não notava, ou se via, não compreendia. Diferente da geléia de jabuticaba, que se tornara amiga íntima sobre as torradinhas ou os pães caseiros desde o último inverno. De tudo, nada me apetecia mais que o pão caseiro. A gente mal olhava as frutas picadinhas, postas em potes no número exato dos netos – mamões, bananas, maçãs, goiabas, melões –; vovó providenciava uma quitanda e as dispunha manhã após manhã sem nunca, entretanto, cobrar que as tigelas fossem tocadas. Se mamãe deixasse, eu viveria daquele pão caseiro com margarina e leite com chocolate, bem gelado, sempre que tivesse fome, ou pura gula.

Magicamente, a toalha – que se sujava todos os dias graças à famigerada geléia e minha total inaptidão com os talheres – estaria limpa no dia seguinte (fui descobrir anos depois que vovó, logo que deixávamos a mesa pra correr no quintal, lavava diariamente a mesma toalha, por puro maneirismo). Ainda assim, me dedicava àquele prazer malicioso de devorar pão caseiro com geléia e margarina.

Na medida em que o cheiro das coisas quentinhas começava a adentrar o corredor, meus primos, com olhos grudados de remelas, acordavam. O estômago roncava mais alto do que eles próprios, então acordavam sem que ninguém lhes pedisse. Pensando assim, é estranho pensar como nos deixávamos cair da cama tão facilmente as sete e pouco da manhã sem que nenhum adulto tivesse que implorar de joelhos para abrirmos os olhos. A hipótese de perder alguma brincadeira, alguma piada ou alguma qualquer, não se cogitava. “Bom dia”, entretanto, era uma expressão tão conhecida a nós quanto хороший день ou outro qualquer de seus verbetes. O Raphael e o Thiago sentavam juntos, lado a lado, pra fazer competição de sanduíches. Colocavam, sem ordem ou preocupação gustativa, tudo o que encontrassem sobre a mesa: diversas fatias de mussarela, presunto, queijo fresco, margarina, as inúmeras geléias, e no fim do trabalho os lanches ficavam tão grandes que mal cabiam naqueles trituradores de alimentos disfarçados de bocas. Só pra não empatar e acirrar a disputa, o Raphael buscava na cozinha um pote de ketchup e derramava sobre o pão, desmantelado, enquanto todo mundo assistia fazendo cara de nojo. Você é porco, o Thiago dizia. E cada um se voltava para o seu próprio prazer.

A tensão prévia se seguiria de um disparo de pernas curtas, esguias e velozes. O universo ecoava distante em nossas cabeças, resumido no instante entre o impulso que nos levaria à frente e aquele silêncio sepulcral. Ouvíamos os pássaros, os carros ao longe na estrada, a respiração do inimigo parado em posição de ataque ao lado. Éramos capazes de ouvir até mesmo pensamentos, e numa dessas, ouvi os do Pedrinho, escondendo que quebrou meu boneco dos comandosemação. Nem fiquei bravo, poxa, eu estava em domínio particular. Ousei ouvir um pouco mais prendendo a respiração até ficar quase em fôlego, só que pensei que o Pedrinho pudesse também estar ouvindo pensamentos: e se ele descobrisse que pusemos, o Thiago e eu, pimenta no seu danone?

Aqueles três segundos eram eternos, duravam infinitas vezes mais do que a própria competição. Na platéia estavam o caçula, Gabriel, ainda frágil demais para nossos jogos furiosos; Juliana, a única dama entre os sete jovens ogros; e também vovó, com o cabelo idêntico por mais de quatro décadas, intacto em seus fios, corte, volume e coloração. Nela, o tempo se ausentara.

Apesar do café farto e de muita atenção, vovó nunca foi de nos por no colo, contar histórias ou apartar os violentos arranca-rabos por onde rolávamos no chão e éramos obrigados a encerrar as brigas em comum acordo, antes que formigas gigantes e vermelhas nos comessem vivos; ou quando o corpo todo pinicava fazendo ocuparmos a mão com a coceira, restando apenas pontapés e encontros de barriga violentos que tremiam além do trópico de câncer. Acho que foi o Thiago quem leu num daqueles guias dos curiosos (como era curioso!) sobre o trópico de câncer. Ficou todo contente por semanas só porque nascera em junho e podia, assim, se vangloriar por ter um signo que tinha um trópico só seu. Na verdade, ninguém sabia o que significava trópico, nem o Thiago, mas disfarçava dizendo que não nos contaria o significado com aquelesnananaranána que as crianças levadas fazem mostrando a língua, as mãos espalmadas, os dedos abertos e a têmpora pressionada pelo dedão. Nananaranána.  Eu me irritava com o Thiago e nem terminava a comida do almoço, porque ele fazia questão de retomar o assunto do trópico na frente dos adultos. Era consenso que, por causa do trópico, o Thiago fosse o mais esperto (embora fosse mesmo o melhor nos jogos de tabuleiro, na corrida e, especialmente, pra subir em árvores). Bom que meu irmão também não tinha paciência e ia comigo pra sala aonde meu avô – que pouco falava conosco – via algum telejornal. A gente sentava ao lado dele esperando o jornal acabar mesmo sem entender quase nada do que diziam, por pura desatenção (preferia olhar os livros intermináveis nas estantes da biblioteca, porém sem nunca ousar tocá-los graças a renite que me empipocava todo). Ainda assim, nos sentávamos esperando a hora em que ele se viraria pra dizer “podem mudar de canal”. Ele se levantava, corria as chaves do carro, o maço de cigarro e sumia. Nunca soube, naqueles anos, o que vovô fazia ou pra onde ia depois da uma. Pra mim, a vida dele se resumia àquele curto espaço do dia onde se sentava elegantemente (como era elegante!) de pernas cruzadas, uma sobre a outra, vendo telejornais.

A vovó estava chorando na sala, minha mãe ao lado dela numa cadeira com os olhos vermelhos, e eu com um carrinho fazendo barulho de motor tentando descobrir o que acontecia. Só de ver minha mãe chorando eu tinha vontade de chorar também. Era assim com todo mundo, principalmente com meu irmão. Bastava eu o ver com aqueles olhos de correr navios que logo todo mundo tinha que voltar a atenção pra mim. Culpa de ele ter se tornado mais introvertido ao longo dos anos talvez seja mesmo minha (e hoje, às vezes, eu imploro pra que ele me olhe com olhos de cortar cebola).

As duas, bem quietas, naquela mesa cujas manhãs fazíamos a alegria, e se transformara imperceptível num refugo da solidão. Sabia que era o vovô, que coisa boa não era. Fiquei me perguntando por que mamãe simplesmente não abraçava a vovó, por que reprimiam tanto aquela vontade de falar e não quebravam logo a barreira que se punha, invisível, entre as duas (como um dos nossos heróis preferidos que quebrava campos magnéticos com os braços! Demais!). Mesmo com todo o silêncio da sala, nunca consegui descobrir o que estavam pensando; esforcei-me pra prender a respiração e transpor as paredes daquelas cabeças, ainda que só tenha escutado o som universal de panela no fogo na cozinha. Subitamente, porém, passei a entender o porquê de ele sair todo o dia após a uma. Compreendi também porque o tempo, pra vovó, não passava mais e porque aqueles cabelos eram o mesmo de uma outra época em que ela e ele sorriam, na beira de um rio, de chapéus. O barulho do motor do meu carro foi diminuindo aos poucos, até que meus olhos estavam como eu os previra.

Já!           

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