Romance de Mictório

Sobre o losango amarelo ouro repousa tranqüila a cabeça de um príncipe de maxilar proeminente, sorriso modesto e madeixas escorridas, apenas flanando olhar no fluxo contínuo dos transeuntes aflitos que se recolhem em interlocuções [protegidos pela privacidade única que se configura por dentro das portinholas] para o desfazer de suas necessidades elementares, um banho no rosto cansado, uma passagem pela dialética dos olhos.
Num quadrado branco, atarracada e macia, por entre os estilhaços e o desbotamento do tempo, dança solene uma bailarina de vestes transparentes, suave no caminhar de sapatilhas celestes. Transita por espaços minúsculos lançando-se para os lados no “gingolear” de um só braço demarcado friamente – confirma na supressão do outro a intencionalidade em fazê-la mesmo lindamente deficiente. Ou enlevaria para si toda a graça e pureza do mundo, num sensível paradoxo da existência que não caberia àqueles azulejos: o desarranjo de deitá-la ali, ou em qualquer outro lugar, senão em redoma envidrada?

Ao final das datas, permanece imóvel o nobre apenas no desviar dos olhos, esgueirando-se para não flagrar constrangimentos até encontrá-la afoita sorrindo numa tarde despretensiosa de verão. Tímido, e pudico, sucumbe à liberdade encantadora e abandona o infortúnio de assistir por intermináveis horas o ciclo repetitivo e tedioso dos homens: elevando olhar, abranda gesto servil e ensaia à dama aceno singelo, ao qual ela lhe retribui com balé inefável borboleteando-se pelos quadrados, para o seu deleite. Na esfera onde convivem harmoniosamente os desejos e os sonhos, unidos pela imagem volúvel que se esvanece no reflexo [intermitente pelo abre-fecha das entradas-saídas], segredam amores impossíveis através das frestas por dias, madrugadas e tardes inteiras.

Quando o lusco-fusco se faz prenúncio da noite, adentra – cheirando ao terrível aroma urbano da vida que corre – um rapaz carregando consigo borrões. Pelas paredes estende as mãos a desenhar símbolos e formas, a caprichar em frases, a aprimorar idéias apropriando-se de traços alheios. Correm frases enegrecidas que marcam os caminhos, até criar no acaso a ponte possível entre os dois amantes solitários. Ali, à vertical, o até então modesto sorriso se transforma em gargalhada copiosa, aguardando que venha pra perto sua dançarina.

Cadenciando flutuante um velejo sob ãs, erres, enes, a bailarina escorre pelo contorno das letras. Ao ultrapassar a última, vira o rosto com aceno envergonhado – e abandona seu amante e os azulejos amarelo-gema de vez. Estatelado, macambúzio, se queda o príncipe de maxilar proeminente e madeixas escorridas.


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