11
nov
08

O A e o Z de Arnaldo Baptista

Com título do editor:

Ele não virou bolor

O A e o Z de um mutante: recém-lançado documentário retrata a emocionante e confusa trajetória de Arnaldo Baptista

“Eles são melhores que os Beatles […] Em uma palavra? Bom pra caralho”, encerra Devendra Banhart num português mal pronunciado. A diferença estaria no fato de que os Beatles possuíam inúmeras referências – do pop à música indiana – exploradas em diversas músicas, enquanto os Mutantes construíam “partes” absolutamente singulares em cada música, como se houvessem músicas diversas dentro de cada uma de suas canções.

O depoimento de Devendra configura-se como apenas mais um – de uma série longa de renomes da música tupiniquim e internacional – no documentário Lóki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle. O filme, produzido pelo Canal Brasil, não entrará na disputa de mercado por salas e público, já que será apenas exibido em festivais e, posteriormente, no próprio canal. Os altos valores pagos aos direitos autorais no cinema inviabilizariam a produção de novos documentários pelo canal, que se baseia em filmes realizados através de parcerias diversas.

Exibido na Mostra Internacional de Cinema, não houve quem ficasse sentado após a exibição. Não porque o filme se valha como cinema, não porque as opções estéticas tenham muito mérito, não porque o didatismo cronológico com o qual o diretor trabalhou não se esgote rapidamente. Mas talvez graças à honestidade com que a obra nos prende, com sua aura constante de redenção, como se fosse o pagamento de uma dívida ainda em vida.

Ao seguir a trajetória de Arnaldo, como uma biografia filmada, recorrendo ao arquivo fotográfico familiar, aos vídeos da época dos festivais, a entrevistas retiradas de outras emissoras; Paulo extrapola a noção que já havia sido construída por Carlos Calado na biografia “A Divina Comédia dos Mutantes”: Arnaldo Baptista, de fato, é um gênio e os Mutantes foram, de fato, geniais.

Não há concessão quanto a esse questionamento: Rogério Duprat, Toninho Petikov, Sean Lennon, todos o consideram como a figura mais importante do cenário musical no país desde 60. Tom Zé confessa que a eles, músicos letrados, não lhes restava ensinar ao garoto sobre a atonalidade da escola de Viena, nem sobre vanguardas musicais.

Sérgio afirma que ele e Liminha não souberam, quando abandonaram Arnaldo e seguiram com Os Mutantes, o quanto à frente o irmão estava, e pede desculpas em público. Enfim, como se tentassem recuperar o engano que levou Arnaldo Baptista a se afundar num universo restrito e particular, único, entorpecido com viagens lisérgicas de LSD, profecias mitológicas e a dor incontrolável dos enganos cometidos.

Difícil não se envolver afetivamente com o filme, com os relatos apaixonados e com a feliz tentativa de retornar ao banco dos memoráveis um homem que teve de saltar do quarto andar de um hospital psiquiátrico para tentar se livrar das amarras da incompreensão. Acima de tudo, o filme é um elogio à liberdade, à vida, à exaltação do indivíduo. É também um agradecimento pela recompensa deixada pelo legado de três garotos que souberam compreender o seu tempo e ser argutos o bastante para sugarem dele o que havia de melhor, transformando-o numa experiência diária.

O maior dos crimes cometidos a Arnaldo foi justamente o de não ter se deixado morrer aos trinta anos, época em que se fazem os mártires e se eternizam os mitos. Para suprir isso, talvez Paulo tenha feito o filme – como uma outra forma de eternizar um homem que foi vítima e ator de catástrofes e intolerâncias sociais, psicológicas e sentimentais.

Foram mais de vinte anos até que os Mutantes voltassem ao palco e se encontrassem numa noite de epifania no Parque do Ipiranga, rodeados de pessoas que saíram de suas casas não apenas para ouvir e ver uma banda de rock, mas para ouvir e ver um homem arredio de óculos dizer qualquer bobagem. No livro de Carlos Calado, a biografia se encerra antes desse encontro, carregada de infindável tristeza, cheia de nós a serem dados.

Lóki, o filme, encerra a trajetória. Aborda o começo. O fim. Como ele previra vinte anos à nossa frente.

11
nov
08

Neo-realismo chinês

Enquanto não arrumo tempo pra escrever, vão aqui uns textos (na verdade, três textos) que postei na 14ª edição da Revista Wave

Em 24 City, Jia Zhang-ke aborda com engenhosidade a transformação na China subvertendo os paradigmas da verdade e representação
Dziga Vertov pregava em manifesto que o cinema deveria se equiparar ao olho humano. O cinema-olho, portanto, estaria atrelado ao desnorteamento; a direção, as escolhas e, em essência, a montagem, seriam recusadas em detrimento de imagens ditas “reais”. A realidade filmada pela objetiva como a consagração do fato e do acontecimento. Porém, na elaboração de sua teoria do cinema-verdade, Kino Pravda, Vertov encontrou resistência direta de seu contemporâneo, o também soviético Sergei Eisenstein, que contrapôs o método ao explicitar a teoria de sua montagem, no qual esta teria capacidade única de traduzir a compressão tempo-espaço do real para a imagem cinematográfica.

Ainda antes, o cinema já havia sido questionado quanto à sua existência como fotógrafo da realidade ou criador de fábulas. Formaram-se, então, duas correntes imaginárias perseguidas até hoje: uma delas atrelada ao cinematógrafo dos Lumière, flagrante da realidade, direta e sem a intervenção de seus realizadores; e outra onírica, ligada ao experimentalismo de George Méliés, que soube tratar o convencional de maneira sempre atípica.

Entre essas duas categorias flutuaram filmes e diretores que souberam interpretar o real mesclando-o a elementos aparentemente insólitos, os que ousaram na tentativa de produzir obras híbridas que atestam o quão ficcional se parecem os documentos da vida diária. O chinês Jia Zhang-ke está no limiar dessas categorias estanques, para os que gostam de categorizar, e seu novo filme, 24 City, transita pelos espaços da ficção e do documentário.

Jia aborda as transformações de Chengdu e os reflexos gerados pelo fechamento de um complexo industrial-militar que foi base econômica da cidade desde a década de 50. A cidade, ano passado, foi uma das mais afetadas pelo terremoto na China, o que levou o diretor a pedir um minuto de silêncio antes da primeira exibição de seu filme no Festival de Cannes deste ano. No lugar da fábrica será construído um conjunto imobiliário ultramoderno, um condomínio de luxo, ressaltando o interesse do diretor em mostrar a queda de velhas instituições na China e sua posterior substituição por outras, advindas da ocidentalização da economia oriental.

Híbrido entre o real e o fictício

Inicialmente, o filme concentra-se nos depoimentos de trabalhadores que praticamente cresceram na fábrica, evidenciando a importância que esta teve para a evolução da cidade e como seus habitantes estão intimamente ligados à sua venda. A câmera de Jia flagra momentos sensíveis, e o próprio diretor conduz as entrevistas tentando resgatar na história a construção da identidade do lugar.

Desde Xiao Wu, seu primeiro longa-metragem, Jia Zhang-ke adota uma estética repleta de autoralidade, em que a força condutora está no sentido de transformação constante. A transição social e seus reflexos no indivíduo ultrapassam o campo econômico e chegam ao âmago da existência. Porém, em 24 City, a mescla dos elementos ficcionais à crueza da realidade criam uma atmosfera bastante expressiva e poética, numa tentativa de historicizar o presente qual um Rosselini.

A genialidade do cinema de Jia está no distanciamento e aproximação com uma realidade pragmatizada; de maneira bastante objetiva ele dirige a narrativa por uma transformação simultânea à demolição da fábrica. O progresso chega e a trilha sonora passa de canções popularescas a uma batida eletrônica carregada; atrizes jovens vão substituindo os depoimentos dos velhos trabalhadores e a câmera vai evidenciando a a queda e os escombros. É a alternância de gerações, de períodos, de épocas. A luta do passado em se firmar contra a força avassaladora do presente.

Entre depoimentos, um fade out permite ao espectador que se retome o fôlego para uma nova bateria de informações – sabe-se lá verdadeiras ou roteirizadas. Gilles Deleuze escreveu que o impacto do neo-realismo italiano estava na apresentação de uma narrativa em que os personagens já viviam em conflito, e que a câmera apenas flagra o movimento desses personagens como um viajante em busca de repostas. Respostas que provavelmente estejam dentro de si mesmos.

24 City vai no sentido de tal concepção ao expor o hibridismo capaz de ser projetado unicamente pelo cinema: o encontro da exuberância de imagens criadas e da impecabilidade de algumas atuações com os ecos da realidade. Não há no mundo cinematográfico, hoje, melhor historiador que Jia Zhang-ke. Como Cássio Starling Carlos descreveu com perspicácia em resenha para a Folha de S. Paulo, “Jia Zhang-ke recua ao pretérito (do cinema) para nos fazer enxergar melhor o presente (do mundo)”.

27
out
08

Só não vai quem já morreu

Após o término das gravações do documentário, na quinta-feira 17, fiquei absolutamente esgotado. Assim que obtiver as fotos posto sobre os três últimos dias, talvez os melhores. Porém, fazê-lo me consumiu e o stress, que vem como dores de êstomago, contou-me que estava na hora de tirar férias curtas de verão.

Então fui à 32 Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começou no mesmo dia 17 e vai até 30 de outubro. Fiz uma progrmação prévia que contava com as sessões gratuitas na Mostra da Juventude (às 10h e às 14h todos os dias para quem chegasse antes no Cine Bombril) e as também gratuitas sessões nas Cabines (estas, privilégios dos malfadados jornalistas).

Aula de graça

Aula de graça

Ao longo da semana comento melhor sobre as experiências, mas valeu por assistir à palestra quase vip com Carlos Reichenbach, além dos novos filmes de Jia Zhang-Ke, genial, Pablo Trapero, Ari Folman, entre outros. Pra quem tiver à toa na metrópole, o site da mostra disponibiliza as exibições diárias, por salas ou até mesmo por diretor.

Site da Mostra

Nesta última semana alguns grandes nomes, como Wong Kar-Wai ou Steven Soderbergh, exibirão seus novos trabalhos, além, é claro, dos ilustres desconhecidos: rendendo sempre surpresas, para o bem ou para o mal.

13
out
08

Entre porções de fritas e spots

Dia 5: show e revelação

Fui questionado sobre a aparente falta de clareza nos textos referentes a Luiz Corrêa e ao filme. De maneira bem didática: é um documentário sobre uma vida. De maneira pseudo-filosófica: é um documentário sobre a mente e suas possibilidades, sobre a fabulação do cotidiano, sobre o hibridismo e dualidade das existências abstratas e concretas. É um documentário sobre um homem de vida modesta; um artista excêntrico. Por enquanto, nada mais. Pois nem mesmo isso sabemos em real possibilidade de representação. Algo que só se revelará na montagem.

Falando em revelar – que tem tudo a ver com película e cinema -, acho bom como verbo representação do que foram as gravações de ontem. O plano se consistia em irmos ao Sobrado´s Bar, com passagem de som marcada às 16h30. Entramos na casa e Sr. Luiz (o pai) nos disse que ele estava no computador. Ficamos assistindo-o por uns três minutos, quando finalmente notou nossa presença.

Em seguida, Luiz nos levou até um pequeno quarto. Lá, havia uma bateria e um piano, ambos recordações do irmão e da mãe – objetos carregados de tristeza singular para Luiz. Filmamos algumas performances com os instrumentos e depois nos dirigimos ao bar. No caminho, a gasolina acabou. Ándale o orçamento! Chegamos e os dois – Luízes pai e filho – aprontavam o equipamento de som. Não levamos nada além do tripé e da câmera; a ida justificava-se mais pela experiência em vê-lo tocar e a reação dos espectadores do que propriamente servir como baterial para a edição.

 

Luizes

Luízes

Ao chegar em casa, para a nossa surpresa, o material estava excelente. Alguns movimentos simples e belos, além de descobrirmos uma potencial trilha sonora. O novo cronograma estipulado prevê gravações até a próxima quinta-feira. Espero que as falhas dos últimos dias tenha se convertido em experiência. 

13
out
08

Música pop e auto-indulgência

Se a crítica musical e as famosas peleas propostas pelos malfadados críticos deixaram de ser convenção há anos, dois álbuns recém-lançados estão sendo importantes por suscitar esse mesmo espírito-debatedor no cenário apático da crítica de música no Brasil – que nem crítica de música é, ou você lê alguma que questiona o uso de um solo em escala cromática ou bases melódicas menores? De qualquer forma, não é hora pra meter o bedelho em tais questionamentos.

O Hermano Marcelo Camelo lançou seu disco Sou – com gracinha concreta na capa que permite a leitura contrária Nós -, recebendo menções imediatas ao caráter excessivamente bossa novístico – para o mal – ou condecoraçóes e associações à obra de um Caymmi ou um Chico – para o bem. Não gostei, não acreditei muito na contemplação e nem em tanta singeleza. O mar, as gaivotas e o violão de Camelo soam mais pasteurizados que reais. Não há muita poesia que se pareça verossímil. Com a participação da jovem-Bob Dylan brasileira, a pequenina Malu Magalhães, a fofura chega a níveis exorbitantes, condicionando uma reflexão direta: o que pretende Marcelo Camelo?

 

Marcelo Camelo tristinho

Marcelo Camelo tristinho

Quando do fim dos Los Hermanos, originou-se pergunta imediata quanto à solução admitida por cada um de seus integrantes na construção de uma obra posterior. De certa forma, Camelo passou a perseguir uma postura pró-Caetano de essência excessivamente orla-carioca. Tentando aliviar a distância existente entre a cena musical no Brasil (por isso pró-Caetano, ao mesmo tempo cult e total) e o Los Hermanos – que é uma fábula de fãs fervorosos -, o carioca aproveitou a deixa do Acústico MTV Sandy e Júnior para engatar: assim entrava em cena com sua nova estratégia de persuasão e divulgação. Lançava-se a imagem do novo Marcelo Camelo desvinculado da banda que o fez se tornar messias de uma geração de garotas de guarda-chuva. Enquanto isso, Amarante grava com Devendra Banhart, vislumbra projeto com o bateirista-brasileiro do Strokes, Fabrizio Moretti, e arremata em ponta no cinema que rendeu surpresas e suspirinhos em Meu Nome não é Johnny.

Há uma sensível diferença de valoração e escolhas nos dois propóstios. Enquanto Amarante focou-se num projeto internacional de parcerias jovens e opções musicais menos cheias de brasilianidade – em excesso na Orquestra Imperial -, pouco preocupado com o reconhecimento no Brasil e mantendo-se à margem da publicidade, Camelo iniciou a construção de um perfil do novo intelectual de sapatos brancos. Ele é o próprio rapaz de classe média alta, elegante, que lê Sarte e chora, assim como chora também ao ouvir os sambas do começo do século com olhares lânguidos.

Na crítica dos impressos endeu irônias deslavadas do normalmente radical Thiago Ney [que não gosto muito]. Não me lembro na íntegra, mas o comentário fazia referência à chuva de e-mails que recebeu em resposta às suas análises do Sou, quando fãs de Camelo sentiram-se humilhados pelas duras ponderações de Thiago. Ele finalizou os comentários e sua opinião ao dizer que acreditava mesmo que o show de Camelo pudesse ser mais interessante que o disco, pois até “meu primo de Botucatu pintando uma cerca é mais animado”.

Mas foi o lançamento de Dig Out Your Soul, do Oasis, que veio a engrossar o caldo: quais os limites entre música-obsessão-estética sonora? A experiência do pop é mesmo de existência sensível e visceral, como faz referência Simon Reynolds? Devemos manter a idolatria aos ídolos em vigília constante ou vibrar mesmo em suas insignificâncias?

 

Adorado pela critica francesa

Adorado pela crítica francesa

 

Na Revista Wave, Felipe Arra e o editor Daniel Faria (ambos meus amigos) travam batalha  - com direito a agressões verbais – nada silenciosa de elogio ao espírito crítico: a tríade bater, levar, devolver! Confiram a resenha e os comentários aqui.

De qualquer forma, há que se considerar a validade da crítica no curso das coisas. Assim como ponderar, decantando calmamente o excesso de hormônios, para que seja possível uma análise destituída de privilégios. Porém, se não há paixão, não há escrita. Então vai o paradoxo: amar/odiar nas representações ou ser-imparcial e dotar de lógica o discurso retórico da crítica?

 

 

 

 

12
out
08

Avaliações e testes finais

Dias 03 e 04: retoques finais no equipamento

Normalmente, o procedimento da coisa segue mais ou menos uma série de infortúnios para, perto do nível máximo das catástrofes, se estabelecer. Aí opera de maneira quase integral, e as coisas começam a acontecer.

Chegamos na casa de Luiz por volta das 14h, não sem atrasar pelo menos uma hora e meia em nosso combinado. Mas chegamos. Luiz nos esperava um pouco ansioso. Dependeríamos apenas de luzes brancas – duas luminárias de quarto e um pequeno abajur – para suprir a iluminação precária da sala – o primeiro cômodo a ser utilizado nas gravações.

Nada leva menos que uma hora num set, sendo esse mais ou menos o tempo gasto por nós até conseguirmos preparar tudo. Descobrimos que Luiz possuía sete refletores de 500 watts para iluminar seus shows; nos socorremos de um deles para amenizar os dramas que a alta exposição causam na imagem: a nitidez se transforma num sem-número de pixels, ou melhor, fica tudo bem amador.

Conversamos por quase duas horas. Falou-se da relação com o irmão já falecido, a dependência com o pai, a projeção de família e futuro ao lado da atual namorada, Vânia Marques, além de algumas boas confissões; num primeiro momento foi de extrema importância por nos mostrar que a idéia era viável e, mais que isso, fazer Luiz se acostumar com o ritmo da câmera, pois ao menos aparentemente não houve simulação e disfarces. O tempo passou rápido, e durante toda entrevista evitei pensar nos rapazes do lado de fora, na câmera e nas luzes; estava tentando imergir no diálogo, mas era difícil estabelecer um sentido para a conversa, torneando os possíveis desvios desnecessários trazendo-o ao que eu gostaria de retirar.

Voltando para a casa, transportando imediatamente para o computador os arquivos, confirmamos que a qualidade da imagem estava ruim. Os planos ficaram escuros, ainda que o áudio tenha valido completamente – a respiração, as tosses, a garganta raspando a todo instante. Todo isso foi captado com o lapela. Infelizmente as imagens serão descartadas, salvo algum movimento valioso demais – o que acho pouco provável.

No dia seguinte marcamos novamente para às 14h. Não poderíamos atrasar, pois às 16h ele precisaria ir à academia para seu treino diário. Optei por gravar apenas quarenta minutos, pois tivemos que nos valer de mais dois refletores para tentar aumentar o nível de luz na sala. O processo foi demorado, só que ao menos no visor LCD parecia que havíamos conseguido maior definição na imagem. Porém, ao chegarmos em casa, dscobrimos que o som havia sido totalmente prejudicado: por algum motivo desconhecido o microfono de lapela não funcionou a o sinal de áudio foi captado pelo microfone da própria câmera. Resultado: gravação perdida.

Chegou então a hora de considerar as coisas. Assistimos ao material captado rapidamente, encontramos soluções para finalizar melhor a iluminação e contornamos o teste do áudio. Então as gravações foram zeradas e um novo cronograma posto em prática. Concordamos que esses dois dias foram uma pré-produção, aonde pudemos experimentar e aprender com a pouca experiência de gravação. Algumas posturas serão mantidas e a sala será locação apenas por mais uma vez. Luiz será questionado sobre os mesmos assuntos já bem trabalhados nesses dois dias, mas acredito que a filmagem não se prejudique por isso.

 

 

08
out
08

Ensaio do mês

Se a vontade permitir, e o famigerado tempo, pretendo publicar mensalmente um ensaio fotográfico. O deste mês revela os bastidores do curta-metragem “Reflexo”, trabalho de conclusão de curso de Rádio e Tv na Unesp dos alunos Angelina Trevisan, GIuliano Gerbasi e Pedro Pipano (nepotismo mesmo, e daí?).

A Revista Wave desta semana deu capa para a produção do filme, com matéria de Felipe Arra. Vale a pena conferir: a matéria e a estréia em novembro, possivelmente em alguma sala do Alameda Quality Center em Bauru.

08
out
08

A epopéia do documentário

Dia 2: os impedimentos da técnica.

Meu Deus! Acabei de escrever um post todo narrando tudo o que aconteceu, mandei e publicar e – nada. Perdi tudo. No fim das contas dizia que acamos postergando algumas decisões e resoluções para esta manhã, que começou só às 11h30. Na verdade temos: no momento: apenas um problema efetivamente: a captura do áudio. Talvez pela câmera não ser profissional ou pelos adaptadores do microfone – não sabemos ao certo – o áudio vem acompanhado de um chiado incessante. Um chiado chato que não permite o silêncio, aquele silêncio em que se ouve só a respiração, os passos na sala ao lado, o silêncio no qual é possível ouvir pensamentos. Esse, ainda não conseguimos.

No meio-tempo entre testes nos liga Luiz, dizendo que tem que ir ao banco e à academia e as filmagens deveriam ser desmarcadas. Gerou um stress entre o produtor e eu, mas acabei por desmarcar mesmo hoje – enquanto ele resolve os problemas dele nós resolvemos os nossos – e iniciar, finalmente, as filmagens amanhã.

No total são dois dias perdidos, mais ou menos duas horas e meia de material bruto a ser capturado por dia, temos pelo menos 5 horas aí para reaver. Se bem que 5 horas é muito, o que nos dará excessivo trabalho na decupagem/edição. Aliás, outra questão a decidir: ser conciso ou esbanjar material? Não sei. Essa tal de alta definição já tem dado problemas demais.

 

Luiz Corrêa

pela fechadura: Luiz Corrêa

 

Mas não são nem 16hs, melhor eu me acalmar.

08
out
08

Tentativas de um pré-cinema: Luiz Corrêa

Dia 1:

Inicialmente, as filmagens estavam marcadas para começar hoje, por volta das 14h. Iríamos até a casa de Luiz para o que seria premeiro dia de entrevistas. Já se previa que o enfoque fosse dado às menores importâncias, acreditando sempre que o momento inicial deve ser de conversa e sensibilidade: unidas para transmitir segurança ao entrevistado. Nada é como parece. “Nada é simples”, diria a professora de balé no final de Fale com Ela. De fato, no cinema, nada é. Ainda mais considerando-se o esquema produtivo “Custo Zero”, que privilegia uma proposta orçamentária – como denuncia de antemão a obviedade do título – que dispenda os menores recursos. Erramos logo na entrada. 

E é incrível começar a ser manipulado pelas dificuldades técnicas, vendo as idéias sucumbirem por uma iluminação insipiente, por um adaptador de microfone que não se encaixa ou pela compra equivocada de uma placa para computador que rende três prestações e nenhum auxílio. Aí vem uma auto-piedade ruim, aonde se começa a avaliar as coisas por baixo, tomando o pressusto de que está bom no caso delas todas parecerem absolutamente ruins.    

Sala

Sala

Há, entre a concepção e a realização, a incrível dificuldade do “fazer”. As idéias vão tomando uma forma que esboça apenas o sentido mais primário, sofrendo nas modulações do próprio fazer, que age impulsivamente sobre as nossas tentativas. No fim, a idéia original continua sendo a melhor, ainda que apenas em idéia. E o filme vai virando outra coisa, coisa que já não parece com a idéia – e por outro lado não deixa de se parecer filme. Mas ainda é cedo para falar do fim com tanta certeza.

Vale a pena contextualizar:

Luiz surgiu em nossa vida em 2006. Era um trabalho de conclusão do semestre de Língua Portuguesa II, período dedicado ao estudo da pós-modernidade e das artes desde as vanguardas do começo de século XX. Nossa monografia concentrava-se nas cinematografias de Glauber Rocha, David Lynch e Woody Allen. Três alienígenas entre si. Com obras que dialogavam apenas no sentido de conservar a tal da autoralidade de maneira tão presente. Então demos pra estudar cinema. O trabalho foi minguando, e saiu de quebrada. Não ficou ruim, e é de validade imensa se o considermos como responsável por esse gosto tão pelas películas. Mas claramente aquém do que poderíamos ter feito. Da monografia viria uma segunda parte. Nesta, realizaríamos três curtas-pilúlas baseados num roteiro único. O intuito: denunciar as ‘estéticas’ – na díptica imagem-som -, já que o roteiro seria o mesmo. A mesma história contada por três cinemas diferentes. Inclusive, a história veio do “Cuca Fundida”, do Woody Allen. Livrinho de contos neuróticos típico do judeuzinho.

 

Copa/Sala de aula

Copa/Sala de aula

Então fomos à procura do ator: uma espécie de Humprey Bogard, era o que descrevia o livro. Nós mesmos o víamos mais ou menos assim. Precisávamos de uma mulher – preferencialmente loira – maravilhosa e um detetive na beira dos quarenta. A providência nos trouxe Luiz, logo após deixarmos de procurar atores, simplesmente observando o pessoal andar pelos corredores. Em menos de dois minutos ele já havia nos contado sobre a vida, o que fazia, sua idolatria por Elvis – foi aí que notamos a semelhança das costeletas – entre outras histórias. Estávamos decididos: era ele.

Não quero me alongar nessa história, pois certamente vale capítulos separados. Conhecemos Luiz, fizemos os filmes – abaixo vai a versão do curta baseado em Glauber -, encerramos o trabalho. E por mais de um ano nosso contato permaneceu esquecido. Nos cruzamos por vezes, mas ele não nos reconhecia e nos limitava-mos nessas incertezas. Por fim, quando deu-se a urgência de um outro trabalho – um programa de entrevistas – lembramos das peculiaridades de Luiz, e o chamamos para participar.

 

 

Os dias que sucederam o programa foram de pura reflexão. Pensei sobre essa instância da mente humana que parece conviver harmoniosamente entre os sonhos e as obviedades cotidianas. Luiz não é umlouco, ainda que seja absolutamente excêntrico à primeira vista. Acima de tudo, doce, delicado, e ao mesmo tempo cheio de si, seguro, dono de histórias aparentemente absurdas; ouvindo-o falar das experiências do kung-fu, qualquer um chega a duvidar de seu bom senso. Porém, há mais que isso, pois Luiz não é uma fraude, um usurpador. É somente um homem que concilia fabulações e relatos naturais num mesmo patamar, uma pessoa que convive pacificamente entre duas instâncias: uma imediata e lógica, outra onírica e insólita.

 

Pensando nisso, e no caráter absolutamente real-imaginário que o cinema possui, sobretudo o cinema de não ficção – que depende de relatos de seres subjetivos e passionais que podem emular emoções a cada frame – decidi pensar nesse pré-cinema, que tomará forma a partir de amanhã, quando a câmera ligada revelará [ou enclausurará] muito dos recônditos humanos. 

 

 

O Quintal

O Quintal